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O que espero da luta e os perigos que vi na rua – um relato

“Na euforia de sua vida uniforme, as pessoas não enxergam mais a uniformidade que vestem”

 

“Pautas” e perspectivas

É do conflito entre a esquerda partidária e da classe média apartidária que pretendo isolar o setor que, nas ruas, tenta contribuir com uma insurreição popular anticapitalista. É um esforço baseado na minha experiência enquanto manifestante, nos encontros que as mobilizações proporcionaram e no desejo de contribuir com um mínimo de entendimento do que anda ocorrendo no país.

Burocracia (1)

Para a esquerda tradicional, da mesma forma que para os manifestantes cara-pintada, a instituição é vista como um lugar em que se chocam interesses pessoais ou sociais. Para nós, a instituição é um mecanismo que obedece as suas próprias leis. Leis essas que não se sabem por quem foram programadas e que não tem nada a ver com os interesses humanos.  Instituições são ininteligíveis. Hoje, estão ao lado da reprodutibilidade das relações capitalistas, ou seja, da sociedade do trabalho, do desenvolvimento e do progresso que acumula as ruínas da desigualdade social. As instituições são os instrumentos da burocratização da atividade social e a despersonalização do indivíduo criador. Hoje, saímos da infância sem saber o que é a juventude, casamos sem saber o que é ser casado e envelhecemos sobre o peso de uma infantilização. Fugindo dos joguetes e controles sobre o que fazer e a quem vender nossas vidas, defendemos a busca de um ingovernável. Queremos o direito de decidir nossas próprias vidas. De forma autônoma, definir nossas atividade e criar o nossos prazeres.

No âmbito das ideias, acredito aí estar a grande diferença entre a esquerda partidária, o individualista da classe média e os que escolheram pela derrocada do capitalismo e de que qualquer regime institucional que o acompanhe. Assim, antes de debater o que propriamente vem acontecendo nas ruas, e antes que me rotulem enquanto um estudante de 68, retorno sem medo a um dos jargões utilizados na França: “Sejamos realistas, exijamos o impossível”.

 

O histórico das ruas, repressão ideológica e policial

Antes de qualquer diagnóstico devemos ter calma nas descrições. Não quero cair numa imprecisão em que se pensa compreender tudo sem nada compreender. Lidar com uma realidade que muda a cada protesto, e que a cada esquina se formam novos grupos, exige uma precisão nas palavras que não dê brechas para capturas e agrupamentos de discursos por parte da grande mídia e setores conservadores.

No início, eram mobilizações contra o aumento da tarifa no transporte público em São Paulo, depois, as ruas da capital econômica viram os protestos ganhar contornos de insurreição popular. As manifestações então cresceram e se espalharam pelo país. Cada cidade misturou diferentes perfis de manifestantes. Em algumas mais em outras menos, era visível a presença dos “politicamente corretos”, o aparecimento da radicalização popular e a presença fascista.

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Em textos anteriores (O Pacifismo Contra-Revolucionário e O protesto em Recife e a polícia Pacifista), abordamos a estratégia de uniformização das manifestações em torno da causa nacionalista. O nacionalismo seria o ponto de ligação entre a mídia e o cidadão Pacifista, fundamentando o comportamento daqueles que estavam nas ruas a marchar no vazio do Pacifismo. Digo vazio porque o cidadão Pacifista é aquele que se coloca ao lado do braço forte da repressão, a polícia. E não há ato mais violento e covarde que a atuação policial e a manutenção do sistema de propriedade privada. A partir daí me parece que empresários e políticos, com medo da radicalização, se uniram ao “aparelho ideológico” da grande mídia no intuito de legitimar as manifestações em torno de uma pauta que exige, ainda que de forma difusa e a título de especulação, uma espécie de reforma política associada a um estado de bem-estar social.

Essa tentativa de uniformizar as manifestações por mim é aqui entendida em duas vias:

1)      O racionalismo das instituições lida com a realidade através da uniformidade. Sem entender a diversidade das reivindicações e as diferentes maneiras de protestar, a democracia perdeu os instrumentos de barganha, mas se utilizou de outros meios eficientes para tentar neutralizar as manifestações. Restou apelar para a repressão deliberada e/ou para a tentativa de transformar os atos em desfiles cívicos. No início, a repressão policial resultou no efeito inverso, ou seja, aumentou a resistência e fez crescer as práticas combativas. Por outro lado, apostar no nacionalismo e no cidadão Pacífico tem anestesiado a urgência das ruas e marginalizado o efeito popular.

2)      A segunda via é um desdobramento lógico. A propaganda nacionalista permitiu isolar o manifestante radical, “violento”, criando um maniqueísmo que facilitasse a intervenção policial para esfriar o movimento. Agora a repressão policial volta às ruas de forma deliberada. O inimigo do Brasil é o grupo de vândalos. A eles estão reservadas a crueldade e covardia das forças armadas. Todo àquele que não marcha de cara pintada é o manifestante a  ser reprimido. Como já ouvi de um policial, esse é o grupo de terroristas. O elemento a que recebe ordens de punir com permissividade.

 

O monstro é criado

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O comportamento do manifestante que trouxe uma cultura nacionalista às ruas merece uma descrição mais detalhada,  ainda que breve. Esse manifestante é o mesmo que se encaixa no perfil generalizado do Cidadão Pacifista. Ele está inserido no grupo de classe média das grandes cidades. Se encontra na zona de conforto criada pelo crescimento econômico do país e no consequente aumento do consumo. Preocupado com sua segurança, anda sempre a marginalizar as classes mais baixas por enxergarem nelas as grandes responsáveis pela violência urbana. Sua ida às ruas me parece ligada ao elitismo dos indignados (como nos panelaços na Argentina e Indignados espanhóis), agora conscientes de que podem cobrar do poder público melhores condições para seu consumo e sua segurança. Seja pelo fim da corrupção ou abolição da PEC 37, mantém nas suas reivindicações um sentimento nacionalista. Para eles é hora de um Brasil melhor, que saiba aproveitar as oportunidades do crescimento econômico pra assim os manter na zona de conforto dos coxinhas – como bem descreve o Passa Palavra em “A revolta dos coxinhas”.

O problema maior é que o teor nacionalista das reivindicações desses manifestantes, de forma consciente ou não, abriu caminhos para a inserção da extrema direita nos protestos. Foi assim em São Paulo e no Rio, cidades em que a presença skinhead não é novidade pra ninguém, mas que a sua aparição nas manifestações só pode ser entendida pelo conteúdo nacionalista do discurso da grande mídia e dos manifestantes coxinha.

 

Ocupando as ruas

Diante desse cenário é que devemos refletir sobre a nossa presença nas ruas daqui pra frente. Abandona-las nesse momento é ceder à pressão midiática que uniformiza as reivindicações em torno do cidadão politicamente correto. É também se render ao argumento autoritário que, ao não conseguir impor uma unidade na reivindicação, abandona o barco aos gritos de que está a se viver a fluidez pós-moderna. Os perigos existem, mas a orientação das manifestações está em disputa nas ruas. E se esse não for o momento apropriado para aqueles que desejam mudar radicalmente a organização social, quando será? Concordamos que a política se faz nas ruas e não nas discussões institucionais. O lugar do nosso encontro são as ruas e não os espaços burocratizados da esquerda tradicional. Se ainda enxergamos na espontaneidade um caminho coerente para a transformação social, abandonar as manifestações é negar uma série de princípios construídos na experiência da luta libertária. Acredito que ainda podemos nos encontrar nas ruas e fortalecer os laços para esses e outros momentos de insurreição popular. Aproximar a periferia e os trabalhadores, eis o grande desafio.

Mas lembremos: espontaneidade e ação direta não são nem nunca foram sinônimos do individualismo inconsequente. Estar nas ruas não é porraloquice. Cada vez mais a atividade do ser humano tem o caráter de uma colaboração. Para os que resistem, um imaginário colaborativo é condição de organização na luta contra o capitalismo. E é nessa perspectiva que faz-se urgente a aliança com a periferia, os trabalhadores das cidades e do campo. Também não podemos confundir a dificuldade de entender o que vem acontecendo com a sustentação de uma prática que opte por uma diluição sem fim de nossas reivindicações. Sigamos exigindo o passe livre e a libertação de todos os presos políticos dessa insurreição popular. Queremos sim o impossível e o ingovernável, e podemos realizá-lo. Para isso, nenhum passo atrás!

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Recife Resiste!